sábado, 27 de agosto de 2016

Silenciosamente

Shira não conseguia entender o que estava errado. Ela havia feito tudo certo, exatamente como era pra fazer.
- Já era pra ter acontecido... - falou, para si mesma, pensativa.
Pensou por alguns instantes e resolveu checar se os elementos estavam dispostos corretamente - tudo estava em ordem. Também verificou a quantidade, mas não havia erro algum. Foi aí que ela se lembrou... Não, não pode ser. Finn jurou que estava tudo escrito no livro! Mas não estava, e ela sabia disso. Olhou para o relógio - não tinha muito tempo. Teria de tentar.
Shira correu. Passou voando pelos corredores do labirinto, sabendo exatamente aonde ia. Todos esses anos que passara presa neste lugar serviram para alguma coisa, afinal. Shira conhecia cada canto melhor do que conhecia a si mesma.
A garota parou na porta de uma sala. Ofegante, girou a maçaneta com cuidado. Além de sua respiração, o ranger da porta era o único barulho que se ouvia.
A sala era escura e fechada. No chão, um poço ocupava a área central do recinto. Era ele que Shira buscava.
Despiu-se rapidamente e, sem hesitar, mergulhou nas águas do poço. A escuridão a impedia de enxergar a um palmo de distância - mas Shira sabia o que procurava, e a visão não era importante para ela no momento. Apalpava as paredes com rapidez em busca do objeto. Ela já o havia visto uma dezena de vezes, mas pegá-lo? Nunca. Apenas quando fosse realmente necessário. As coisas fora do lugar podem causar muitos problemas, pensava ela.
Seu fôlego estava quase no fim quando sentiu, ao seu toque, algo se mexer. A certeza era instantânea: agarrou o objeto com as duas mãos e subiu, rumo à superfície.
A pedra turquesa reluzia de tal forma que a sala inteira foi iluminada. Shira olhou em volta, admirada com o poder da pequenina. Agora, mais do que nunca, tinha certeza de que a pedra poderia fazer acontecer. Tinha de ser assim.
A garota vestiu a roupa e fez o caminho de volta, ainda mais veloz.
Seu quarto pareceu ficar enormemente encantado quando Shira entrou com a pedra turquesa, quase como se ganhasse vida. A menina, sem perder tempo, adicionou o objeto reluzente à mistura de elementos que já havia feito e pronunciou as runas escritas no livro de Finn.
Esperou alguns segundos, sem o menor sinal de sucesso. Foi quando, ao quase perder as esperanças, Shira viu sua mistura tomar forma. Todos os elementos se juntaram, formando uma minúscula esfera. Ela sentiu a gravidade se esvair aos poucos, junto com as paredes e os corredores do labirinto. Em alguns segundos, tudo o que restara era ela, o pequeno objeto que criara e o vazio. Shira observou a esfera, que emitia quase inaudíveis ruídos e minimamente visíveis focos luminosos. Ela sabia que podia estragar tudo - mas precisava tocá-la.
Shira aproximou os dedos do objeto, com cautela, e encostou-os na superfície arredondada. No mesmo instante sentiu um calor inimaginável percorrer por todo seu corpo, e uma força incontrolável que a empurrava para longe.
Shira estava assustada, mas tinha certeza de que havia conseguido. Estava acontecendo!
Ela sabia que isso deveria acontecer depois da explosão. Agora, podia ver as estrelas rumando velozmente ao infinito, seguidas por planetas, meteoros e cometas - ela acreditava que era assim que se chamavam. De longe, viu tudo se organizar perfeitamente. Depois que seu trabalho for feito, pensou, as coisas saberiam exatamente o que fazer. Foi o que Finn havia dito. E foi assim que aconteceu.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Alvoreanoitecer

Amarelo Van Gogh
Laranja alaranjado
50 tons de azul 
Algodões brancos 
E vai descendo, descendo... 
Descendo 
50 tons de azul 
Gotas prateadas 
Grande sorriso esburacado 
E vai subindo, subindo...
Subindo
Amarelo Van Gogh

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Votos

6 de agosto de 2005, às 17h46 
Achar o anel perfeito para Nicole não foi tarefa difícil. Sempre que passávamos em frente à joalheria da cidade, ela apontava para a mesma joia na vitrine. Decidida do jeito que era, não mudaria de opinião tão rápido. Aquele seria o anel perfeito para selarmos a nossa união.

6 de agosto de 2005, às 19h03 
Consigo até imaginar sua expressão de surpresa ao descobrir do que aquilo se tratava: o noivado com que tanto sonhou.
Ao chegar em casa, no entanto, percebo que algo está errado.
- Nicole, aonde está indo? – indaguei, ao vê-la arrastar uma mala em direção à porta.
- Vou embora. Sinto muito por tudo. – respondeu, sem dirigir o olhar para mim.
- Embora? Embora para onde?
- Sabe, você é um cara legal. E fez muito bem para mim, por um tempo... mas agora preciso de alguém que me dê o que você nunca pode me dar. – ela olha o anel que exibe na mão direita.
Ela estava me deixando por outro. Assim, de repente. Ao ouvi-la fechar a porta, sinto o vazio do apartamento invadir meus sentimentos. Como ela pode ser tão cruel? Me iludindo dessa maneira, me fazendo pensar que estava tudo bem. O vazio começa a ser preenchido por um único sentimento – a raiva. É incrível como as coisas que passamos anos construindo podem desmoronar em poucos segundos.

7 de agosto de 2005, às 7h25 
Não é fácil dormir quando se tem tantas coisas na cabeça. Passei a noite em claro, o que me deu tempo suficiente para decidir o que fazer. Dentre as possibilidades, apenas uma me satisfazia – e seria concretizada nesta noite. Meu corpo, mesmo sem dormir, não demonstra sinal algum de cansaço. Levanto-me da cama. Não há tempo a perder.

7 de agosto de 2005, às 19h34 
Espero Nicole sair do trabalho e a sigo até sua nova casa. Ela aparenta estar tranquila, como se não tivesse destruído uma vida – a minha vida – na noite passada. Ao entrar na casa, é recebida com abraços de um homem. Aquilo é mais do que consigo aguentar. Sem pensar duas vezes, saio do carro e vou ao encontro dos dois, que rapidamente trocam seus sorrisos por expressões de incredulidade.
A situação impede que qualquer um de nós fale alguma coisa. Adianto-me e seguro a mão de Nicole, retiro seu anel e o jogo para longe. Sem soltá-la, tiro do bolso a joia que eu havia comprado para ela.
- Nicole, aceita casar-se comigo? – pergunto, oferecendo-lhe o anel, sem esperar por uma resposta. – na alegria e na tristeza...
Ela tenta se esquivar, mas aperto seu braço com mais força.
- Na saúde e na doença... – coloco o anel em seu dedo. Retiro a arma do bolso e aponto na direção de Nicole.
- Até que a morte nos separe.

O pequeno doador de esperanças

        Já era tarde da noite, estava tudo muito quieto e escuro naquela praia. Aylan estava com sono e pedia para que sua mãe o colocasse para dormir. Ela o acalmava, sussurrando que, assim que entrassem no barco, ele poderia descansar.
      O menino não entendia o que estavam fazendo, àquela hora, no litoral. Ele ouvira conversas de seus pais sobre uma fuga clandestina, mas não sabia o que isso significava. “Aonde estamos indo, mamãe?” indagou o pequeno, enquanto caminhavam em direção ao mar. “A um lugar em que não há bombas, nem guerra, nem violência” respondeu a mãe.
Aylan, seus pais e seu irmão entraram em um pequeno barco, que também carregava outras famílias. Logo que começaram a viagem, o garotinho adormeceu. Sonhou com as palavras de sua mãe: Um lugar bonito e tranquilo, sem barulhos que o acordassem durante a noite, sem fome, sem dor.
      No entanto, seu sono durou pouco. Sentiu suas roupas molharem, ouviu gritos de desespero. Tudo aconteceu de repente – o barco começou a inundar, as pessoas ficaram apavoradas e todos afundaram no oceano. Seu pai o agarrou, junto com os outros membros da família, mas Aylan escorregou de seus braços, submergindo completamente.
Quanto mais se debatia, mais afundava – e o garotinho não sabia mais o que fazer. Perdido e quase sem forças, o pequeno entregou-se de vez ao oceano. Ele sentia a água adentrando seus pulmões, percebia sua visão perdendo a nitidez. Foi quando avistou, na superfície, um lugar exatamente como o que sua mãe descreveu. Muito bonito, sem guerras ou violência. Ouviu o som de crianças brincando e desejou juntar-se a elas. Sua mãe, segurando o irmão no colo, apareceu ao seu lado, estendendo a mão para o filho. Juntos, nadaram em direção àquele mundo perfeito.
        Alguns dias depois, o corpo do garotinho foi encontrado por policiais em uma praia. O mundo todo ficou comovido com sua morte. Mas ninguém podia imaginar as coisas lindas que ele vira, e a felicidade que sentira ao perceber que, finalmente, havia encontrado a paz que tanto desejou.

                                                                  Releitura do conto de fadas A Pequena Vendedora de Fósforos, de Hans Christian Andersen.

sábado, 26 de abril de 2014

Best The Name of the Wind's Kvothes

Eu sei que é meio old-fashioned fazer títulos em inglês pra postagens em português, além do fato de que não fazem sentido algum. Mas acontece que eu não podia deixar de fazer o trocadilho infame com o nome do protagonista da trilogia, Kvothe, que pronuncia-se mais ou menos como "kuouth", e com a palavra "quote" (em T.L. citação). Eu simplesmente não podia.
De qualquer forma, recentemente resolvi pegar os meus livros das Crônicas do Matador do Rei para reler algumas partes, e notei algumas marcações minhas nas páginas. Eu sublinhei algumas frases que considero sábias, ou que me fizeram refletir sobre alguma coisa. Então, resolvi fazer um compilado de todos os trechos que me marcaram, de alguma forma, nesses livros.


"Então essa é a diferença entre contar uma história e estar dentro dela, pensou [o Cronista], entorpecido: o medo." 
Pg. 51, O Nome do Vento



"[Ben, para Kvothe] Se você pretende impor sua vontade ao mundo, tem que exercer controle sobre aquilo em que acredita." 
Pg. 75, O Nome do Vento



"[Kvothe, para Bast] Porém a razão mais simples é a menos satisfatória, suponho. A verdade é esta: eu não estava vivendo uma história." 
Pg. 296, O Nome do Vento


"É claro - disse Kvothe, com ar pomposo - Limpo, rápido e fácil, como mentir. Sabemos como termina praticamente antes de começar. É por isso que as histórias nos atraem. Elas nos dão a clareza e a simplicidade que faltam à vida real." 
Pg. 296-297, O Nome do Vento


"- Mas isso são apenas histórias - protestei.
   Kilvin me olhou com ar divertido.
- De onde vêm as histórias, E'lir Kvothe? Toda história tem raízes profundas em algum lugar do mundo." 
Pg. 448, O Nome do Vento


" Auri meneou a cabeça:
- Com certeza. As corujas são sábias. São cuidadosas e pacientes. A sabedoria impede a audácia - disse. (...)
 A sabedoria impede a audácia. Depois de minhas recentes aventuras em Trebon, não pude deixar de concordar." 
Pg. 607, O Nome do Vento


"Portanto, sim, ele [o alaúde] tinha suas falhas, mas que importância tem isso, quando se trata de questões do coração? Amamos aquilo que amamos. A razão não entra nisso. Sob muitos aspectos, o amor insensato é o mais verdadeiro. Qualquer um pode amar uma coisa por causa de. É tão fácil quanto pôr um vintém no bolso. Mas amar algo apesar de, conhecer suas falhas e amá-las também, isso é raro, puro e perfeito." 
Pg. 58, O Temor do Sábio